terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Os Dragões Não Conhecem O Paraíso.

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Tenho um dragão que mora comigo.

Não, isso não é verdade.

Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja como uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outro devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus.
Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.
(...)


- Há um tempo atrás, numa conversa pela internet, alguém me disse: "Priscyla minha corajosa!".
Perguntei o porquê de ser corajosa. Esse alguém me disse: "Porque é palavra que eu te defino, coragem... Só pelo fato de você tentar me ter, domar algo selvagem, querer um dragão de estimação, é uma corajosa".
Ontem lendo esse texto de Caio Abreu relembrei desse momento. Estranho momento.


(...)
" Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos - como eu inventava uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim. Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia."

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